A hepatite auto-imune (HAI) é uma doença inflamatória crônica do fígado, de causa presumivelmente auto-imune, que leva à destruição progressiva do parênquima hepático e, na ausência de tratamento imunossupressor, evolui freqüentemente para cirrose. Esta doença acomete, preferencialmente, mulheres e caracteriza-se pela presença de hipergamaglobulinemia, auto-anticorpos (AA) circulantes e infiltrado inflamatório portal linfoplasmocitário, associado à necrose em saca-bocados e à formação de rosetas de hepatócitos. A maioria dos pacientes com HAI responde satisfatoriamente à terapêutica imunossupressora com remissão clínica, laboratorial e histológica. No entanto, após a suspensão do tratamento, cerca de 60-80% dos pacientes que tiveram resposta completa apresentam recidiva da doença, necessitando da reintrodução de drogas imunossupressoras.
A doença é classificada em três tipos, de acordo com o padrão AA. O tipo 1 apresenta positividade para o anticorpo antinúcleo (AAN) e/ou anticorpo antimúsculo liso (AAML). O tipo 2 caracteriza-se pela presença do anticorpo antimicrossoma de fígado e rim tipo 1 (AAMFR-1) e/ou anticorpo anticitosol hepático tipo 1 (AACH-1) e o tipo 3 pela positividade para os anticorpos antiantígeno hepático solúvel (AAAHS) e antifígado e pâncreas (AAFP), cuja reatividade está direcionada para o mesmo antígeno. A classificação da HAI em pelo menos dois tipos é sustentada pela heterogeneidade clínica da doença. Os pacientes com HAI-2, quando comparados aos portadores de HAI-1, apresentam características peculiares no início da enfermidade, tais como: menor idade, maior freqüência de hepatite fulminante, níveis mais elevados de bilirrubinas e de aminotransferases e mais reduzidos de gamaglobulinas. Por outro lado, não se observam diferenças clínicas significativas entre os pacientes com HAI tipos 1 e 3. Observa-se, inclusive, positividade para os AAAHS/AAFP em cerca de 15-20% dos pacientes com HAI-1.
Observa-se heterogeneidade clínica mesmo entre pacientes com HAI-1 provenientes de diferentes regiões geográficas. Pacientes brasileiros com HAI-1 quando comparados a norte-americanos apresentam início mais precoce de doença, menor freqüência de doença auto-imune extra-hepática e níveis mais elevados de aminotransferases e gamaglobulina.
A maioria dos AA observados nos portadores de HAI apresenta reatividade para o DNA nuclear, enzimas e proteínas estruturais nucleares e citoplasmáticas. Recentemente, foram descritos os antígenos-alvo dos AACH-1 e AAAHS/AAFP, sendo reconhecidas, respectivamente, a formiminotransferase ciclodeaminase e a (RNP).
A predisposição genética a HAI foi associada a presença do haplótipo HLA-A1/B8 /DR3 ou HLA-DR4 em caucasóides, assim como também ao alelo TNF2 do TNF-alfa e ao genótipo GG do gene da molécula de adesão CTLA-4. Dados provenientes da América do Sul demostraram resultados discordantes, sendo observadas associação da HAI-1 com o HLA-DR13 e da HAI-2 com o HLA-DR7 e não sendo verificada ligação da doença com os outros loci supracitados.
Os critérios diagnósticos da HAI foram recentemente revisados pelo grupo internacional de estudo da doença. A despeito das diferenças clínicas e sorológicas observadas nos portadores de HAI, a grande maioria responde ao tratamento imunossupressor com corticosteróides e azatioprina com remissão clínica, bioquímica e histológica. Pacientes com deterioração clínica devem ser avaliados para transplante de fígado. Outros imunossupressores, particularmente os inibidores de calcineurina e o micofenolato de mofetil podem ser alternativas terapêuticas para os pacientes que não apresentarem resposta ao tratamento convencional.
* Coordenador da Unidade de Gastroenterologia e Hepatologia do Hospital Português / Doutor em Gastroenterologia pela FMUSP
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