Estudos realizados fora do Brasil têm mostrado um declínio persistente da mortalidade atribuída à doença arterial coronariana nas últimas três décadas 1-4. Este fenômeno pode ser em parte decorrente da redução da incidência de doença arterial coronariana, acreditando-se que esteja relacionado com modificações comportamentais (ex., dieta, tabagismo, atividade física) e melhor controle da hipertensão arterial. Um outro fator que pode estar contribuindo para a redução da mortalidade por doença arterial coronariana é o aumento da sobrevida destes pacientes, o que contribui para uma maior probabilidade de morte por outras causas.
Existem evidências de que a introdução de novos recursos diagnósticos e terapêuticos também contribuiu para a melhora do prognóstico de pacientes com doença arterial coronariana nas últimas décadas. É importante considerar, no entanto, que fatores sócio-demográficos estão associados com a utilização destes novos avanços diagnósticos e terapêuticos. Estudos recentes mostram que os homens com infarto agudo do miocárdio recebem mais intervenções (e mais precocemente) do que as mulheres 5-7. É, portanto, plausível a hipótese de que o gênero esteja associado com diferentes padrões na tendência temporal da mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio.
Apesar da disponibilidade da informação sobre mortalidade por causas específicas, estudos que analisem a evolução da mortalidade por doença arterial coronariana ainda são escassos no Brasil. Para Salvador, Lolio e cols. 8 sugeriram que a mortalidade por doenças isquêmicas do coração permaneceu estável no período 1979-1989, tanto em homens quanto em mulheres com idades entre 35 e 64 anos. No entanto, esses autores não avaliaram a evolução específica da mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio.
Além disso, o período de 10 anos que foi avaliado precedeu a incorporação de intervenções que vem sendo cada vez mais utilizadas em pacientes com doença arterial coronariana, como a terapia trombolítica e angioplastia primária. Com este estudo, pretende-se descrever a evolução da mortalidade por infarto agudo do miocárdio em ambos os sexos na cidade de Salvador, BA, no período 1981-1996.
Os dados relativos à freqüência anual de mortes atribuídas ao infarto agudo do miocárdio (CID 410) na cidade de Salvador no período 1981-1996 foram obtidos através do Sistema DATA SUS, Ministério da Saúde, e complementados por relatórios técnicos emitidos pelo Centro de Informação em Saúde (CIS) da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) referentes aos anos de 1994-1996 9. Apenas foram consideradas mortes em indivíduos com idade >30 anos. Houve 4.265 casos de morte no sexo masculino e 3.530 no feminino, atribuídos ao infarto agudo do miocárdio no período em estudo. Dados da população de maiores de 30 anos da cidade de Salvador, obtidos dos anuários estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 10, foram usados para o cálculo dos coeficientes por gênero.
Com relação à análise de dados foram definidos quatro períodos: 81-84, 85-88, 89-92 e 93-96. Para cada período, a partir de 85-88, foi determinado o percentual de redução relativo ao período anterior na mortalidade, total e sexo-específico, atribuído ao infarto agudo do miocárdio. A comparação do declínio da mortalidade por gênero e para cada período foi realizada pela razão de mortalidade.
Resultados No período 85-88 ocorreu um aumento na mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio relativa ao período 81-84 (89,2/105/ano vs 82,1/105/ano). Esta tendência inicial para elevação na mortalidade, no entanto, acompanhou-se de redução nos períodos subseqüentes. A redução percentual relativa ao período anterior foi de 10% para 1989-1992(relativa a 1985-1988) e de 20,3% para 1993-1996 (relativa a 1989-1992) (tab. I).
A tabela II apresenta a mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio, por sexo, de acordo com o período.
Embora a tendência de declínio da mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio ao longo dos anos (fig. 1) venha ocorrendo em ambos os sexos, o percentual de redução relativo ao período anterior tem sido maior no sexo masculino do que no feminino. Em conseqüência, a razão de mortalidade (masculino vs feminino) vem gradualmente reduzindo, indicando que a mortalidade em homens apresenta uma tendência para se aproximar da mortalidade em mulheres.
Discussão Nossos achados indicam que vem ocorrendo uma redução gradual da mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio, a partir da segunda metade da década de 80. Esta tendência temporal de queda de mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio pode, talvez, fazer parte do mesmo fenômeno que vem sendo observado desde a década de 70 em países da Europa e América do Norte.
Os dados também indicam que o declínio da mortalidade atribuída ao infarto agudo do miocárdio vem ocorrendo de forma mais pronunciada em homens do que em mulheres. Embora isto tenha sido observado em período relativamente curto, estes achados estão em concordância com os de Gillium 4 que, ao analisar dados da população dos Estados Unidos, "Center for Disease Control and Prevention, National Center for Health Statistics" mostrou que, na última década, a redução da mortalidade por cardiopatia isquêmica foi maior em homens do que em mulheres.
As possíveis razões para esta diferença no declínio da mortalidade entre os sexos não foram diretamente avaliadas no presente estudo. Entre as potenciais explicações, devem ser consideradas diferenças entre homens e mulheres no controle de fatores de risco coronariano ao longo do tempo.
Referências 9. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (1979-1993). Fundação Nacional de Saúde. 10. Fundação IBGE - IX Censo demográfico 1980, Rio de Janeiro, 1983. 11. Fundação IBGE - X Censo demográfico 1991, Rio de Janeiro, 1993. 12. Maynard C, Althouse R, Cerqueira M, Olsufka, Kennedy JW. Underutilization of thrombolytic therapy in eligible women with acute myocardial infarction. Am J Cardiol 1991; 68: 529-30. 13. Roger L, Jacobsen SJ, Pellikka AP, Millier TD, Baley KR, Gersh BJ. Gender differences in use of stress testing and coronary heart disease mortality - A population based study in Olmsted County, Minnesota. J Am Coll Cardiol 1998; 2: 345-52. 14. Vaccarino V, Krumholz HM, Berkman LF, Horwitz RI. Sex differences in mortality after myocardial infarction. Circulation 1995; 91: 1861-71. 15. Malacrida R, Genone M, Maggioni AP, et al. A comparison of the early outcome of acute myocardial infarction in women and men. N Engl J Med 1998; 338: 8-14. 16. Passos LCS, Lopes AA, Barbosa AA, Santos-Jesus R. Por que a letalidade hospitalar do infarto agudo do miocárdio é maior entre as mulheres? Arq Bras Cardiol 1998, 70; 327-30. 17. Lessa I, Cortes EQ, Souza JA, Souza Filho J, Pondé Netto J, Almeida FA. Epidemiology of acute myocardial infarction in Salvador, Brazil. Incidence, lethality, and mortality. PAHO Bull 1987; 21: 28-37. |