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Artigo Científico: Avanços no cuidado com a Sepse/ Fev 2005
         
 
   
Artigo Científico: Avanços no cuidado com a Sepse/ Fev 2005
 
 
Antigamente chamada de septicemia, a sepse é uma infecção complicada por uma resposta inflamatória do organismo. Em outras palavras, quando ocorre um processo infeccioso, o organismo libera várias substâncias para debelar essa infecção. Algumas pessoas, além de apresentar esta reação inflamatória no local, liberam uma quantidade exacerbada de substâncias na circulação sangüínea, tornando esta resposta sistêmica.
 
 

São estas substâncias que lesam o organismo, e esta reação do próprio corpo acaba atingindo vários órgãos, gerando, por exemplo, a diminuição na função dos rins, do coração, do sistema de coagulação, do pulmão e até do cérebro. Este comprometimento de vários órgãos é também chamado de Falência de Múltiplos Órgãos e Sistemas, e a forma mais grave da sepse se chama choque séptico.

Pessoas em qualquer idade podem apresentar este tipo de complicação, diagnosticada por sinais clínicos como febre, aumento da freqüência cardíaca, comprometimento do estado geral com fraqueza, cansaço, podendo evoluir para diminuição na produção de urina, desconforto respiratório, falta de ar, queda da pressão arterial e confusão mental. Exames laboratoriais e radiológicos confirmam a gravidade do quadro clínico.

A cada ano, a sepse, principal causa de morte em UTIs não coronarianas, adquire maior importância epidemiológica. A incidência de pacientes com sepse aumentou em mais de 90% na última década. Um estudo recente refere uma ocorrência de 750 mil novos casos de sepse por ano nos EUA, com cerca de 215 mil mortes1.

No Brasil, os dados ainda são escassos. Um estudo recente demonstrou uma incidência de sepse grave de 27%, com uma mortalidade de 46%2. A persistência dessas altas taxas parece inaceitável. Entretanto, devemos levar em consideração alguns fatores: em primeiro lugar, a complexidade da doença, que tem uma apresentação heterogênea; em seguida, o fato de que só agora se conhece um pouco mais sobre a fisiopatologia. Além disso, muitos casos só são reconhecidos tardiamente, em decorrência da falta de especificidade de seus sinais clínicos.

Estratégias de suporte

O tratamento dos pacientes com sepse baseia-se na introdução adequada de antibióticos e remoção cirúrgica, quando indicada, para debelar o foco infeccioso, suporte adequado para as diferentes disfunções orgânicas presentes nesta circunstância e a utilização de substância capaz de interferir no processo de coagulação e inflamação.

Atualmente, diversas estratégias de suporte estão bem estabelecidas, como a utilização de baixos volumes correntes durante a ventilação mecânica na lesão pulmonar aguda ou na síndrome do desconforto respiratório agudo3, administração de baixas doses de corticosteróides nos pacientes com insuficiência adrenal relativa3, controle glicêmico rigoroso utilizando um protocolo de insulinoterapia4, administrações rápidas de fluidos e otimização hemodinâmica precoce5, além do uso de drotrecogina alfa (ativada), substância  que interfere na ativação da cascata de coagulação6. Cabe ressaltar que estas intervenções não são excludentes, e o manejo apropriado requer o seu uso conjunto no momento certo.

É unânime a opinião entre os especialistas que o uso destas novas terapias de forma integrada pode reduzir esta taxa elevada de mortalidade. O grande desafio é encorajar os médicos a utilizar estas mudanças em sua rotina diária. Para isso foi lançada uma campanha no mundo inteiro, chamada de "Surviving Sepsis Campaign", da qual o Hospital Português faz parte, para aplicar protocolos de tratamento que consideram essas novas intervenções e a implementação de programas de educação continuada envolvendo a equipe multidisciplinar que trabalha na emergência, nas enfermarias e nas UTIs. Outro projeto totalmente brasileiro, com estes mesmos objetivos, se chama SEPSSE (Suporte Especializado para Pacientes Sépticos na Sala de Emergência), do qual a população leiga também participará através do recebimento de informativos.

Dr. Octávio Messeder, coordenador da Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Português e Dr. José Mário Meira Teles,  Médico da Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Português.

Referências bibliográficas:

1. Angus DC, et al. Epidemiology of severe sepsis in the United States: Analysis of incidence, outcome, and associated costs of care. Crit Care Med 2001; 29:1303-1310.
2. Silva E, et al. Brazilian Sepsis Epidemiological Study. Critical Care Forum, Jun,2004.
3. The Acute Respiratory Distress Syndrome Network. Ventilation with Lower Tidal Volumes as Compared with Traditional Tidal Volumes for Acute Lung Injury and the Acute Respiratory Distress Syndrome. N Engl J Med 2000; 342:1301-1308.
4. Annane D, et al. Effect of treatment with low doses of hydrocortisone and fludrocortisone on mortality in patients with septic shock. JAMA 2002; 288:862-871.
5. Van den Berghe G, et al. Intensive insulin therapy in critically ill patients. N Engl J Med 2001; 345:359-367.
6. Rivers E, et al. Early goal-directed therapy in the treatment of severe sepsis and septic shock. N Engl J Med 2001; 345:1368-1377.
7. Bernard GR, et al. Efficacy and safety of recombinant human activated Protein C for severe sepsis. N Engl JMed 2001; 344:699-709.

 

 
         
 
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