|
São estas substâncias que lesam o organismo, e esta reação do próprio
corpo acaba atingindo vários órgãos, gerando, por exemplo, a diminuição na
função dos rins, do coração, do sistema de coagulação, do pulmão e até do
cérebro. Este comprometimento de vários órgãos é também chamado de Falência
de Múltiplos Órgãos e Sistemas, e a forma mais grave da sepse se chama
choque séptico.
Pessoas em qualquer idade podem apresentar este tipo de complicação,
diagnosticada por sinais clínicos como febre, aumento da freqüência
cardíaca, comprometimento do estado geral com fraqueza, cansaço, podendo
evoluir para diminuição na produção de urina, desconforto respiratório,
falta de ar, queda da pressão arterial e confusão mental. Exames
laboratoriais e radiológicos confirmam a gravidade do quadro clínico.
A cada ano, a sepse, principal causa de morte em UTIs não coronarianas,
adquire maior importância epidemiológica. A incidência de pacientes com
sepse aumentou em mais de 90% na última década. Um estudo recente refere uma
ocorrência de 750 mil novos casos de sepse por ano nos EUA, com cerca de 215
mil mortes1.
No Brasil, os dados ainda são escassos. Um estudo recente demonstrou uma
incidência de sepse grave de 27%, com uma mortalidade de 46%2. A
persistência dessas altas taxas parece inaceitável. Entretanto, devemos
levar em consideração alguns fatores: em primeiro lugar, a complexidade da
doença, que tem uma apresentação heterogênea; em seguida, o fato de que só
agora se conhece um pouco mais sobre a fisiopatologia. Além disso, muitos
casos só são reconhecidos tardiamente, em decorrência da falta de
especificidade de seus sinais clínicos.
Estratégias de suporte
O tratamento dos pacientes com sepse baseia-se na introdução adequada de
antibióticos e remoção cirúrgica, quando indicada, para debelar o foco
infeccioso, suporte adequado para as diferentes disfunções orgânicas
presentes nesta circunstância e a utilização de substância capaz de
interferir no processo de coagulação e inflamação.
Atualmente, diversas estratégias de suporte estão bem estabelecidas, como
a utilização de baixos volumes correntes durante a ventilação mecânica na
lesão pulmonar aguda ou na síndrome do desconforto respiratório
agudo3, administração de baixas doses de corticosteróides nos
pacientes com insuficiência adrenal relativa3, controle glicêmico
rigoroso utilizando um protocolo de insulinoterapia4,
administrações rápidas de fluidos e otimização hemodinâmica
precoce5, além do uso de drotrecogina alfa (ativada),
substância que interfere na ativação da cascata de
coagulação6. Cabe ressaltar que estas intervenções não são
excludentes, e o manejo apropriado requer o seu uso conjunto no momento
certo.
É unânime a opinião entre os especialistas que o uso destas novas
terapias de forma integrada pode reduzir esta taxa elevada de mortalidade. O
grande desafio é encorajar os médicos a utilizar estas mudanças em sua
rotina diária. Para isso foi lançada uma campanha no mundo inteiro, chamada
de "Surviving Sepsis Campaign", da qual o Hospital Português faz parte,
para aplicar protocolos de tratamento que consideram essas novas
intervenções e a implementação de programas de educação continuada
envolvendo a equipe multidisciplinar que trabalha na emergência, nas
enfermarias e nas UTIs. Outro projeto totalmente brasileiro, com estes
mesmos objetivos, se chama SEPSSE (Suporte Especializado para Pacientes
Sépticos na Sala de Emergência), do qual a população leiga também
participará através do recebimento de informativos.
Dr. Octávio Messeder, coordenador da Unidade de Tratamento
Intensivo do Hospital Português e Dr. José Mário Meira Teles,
Médico da Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital
Português.
Referências bibliográficas:
1. Angus DC, et al. Epidemiology of severe sepsis in the United States:
Analysis of incidence, outcome, and associated costs of care. Crit Care Med
2001; 29:1303-1310.
2. Silva E, et al. Brazilian Sepsis Epidemiological Study. Critical Care
Forum, Jun,2004.
3. The Acute Respiratory Distress Syndrome Network. Ventilation with Lower
Tidal Volumes as Compared with Traditional Tidal Volumes for Acute Lung
Injury and the Acute Respiratory Distress Syndrome. N Engl J Med 2000;
342:1301-1308.
4. Annane D, et al. Effect of treatment with low doses of hydrocortisone and
fludrocortisone on mortality in patients with septic shock. JAMA 2002;
288:862-871.
5. Van den Berghe G, et al. Intensive insulin therapy in critically ill
patients. N Engl J Med 2001; 345:359-367.
6. Rivers E, et al. Early goal-directed therapy in the treatment of severe
sepsis and septic shock. N Engl J Med 2001; 345:1368-1377.
7. Bernard GR, et al. Efficacy and safety of recombinant human activated
Protein C for severe sepsis. N Engl JMed 2001; 344:699-709.
|