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Artigo: Breve reflexão sobre a história e o sentido atual dos hospitais na sociedade/ Jan 2005
         
 
   
Artigo: Breve reflexão sobre a história e o sentido atual dos hospitais na sociedade/ Jan 2005
 
 
Os seres vivos têm um compromisso com realidades que não os poupa do envelhecimento e das doenças. Face a tais circunstâncias, no que diz respeito aos homens, o atendimento a essas realidades constitui o objetivo precípuo da Medicina e está entre os deveres éticos prioritários da própria sociedade que eles formam.
 
 

Nos primórdios, antes e muito tempo depois da era hipocrática, quando um traço de profundo misticismo relacionava o sofrimento humano à direta e inflexível vontade das divindades, que assim punia as criaturas julgadas faltosas, eram os templos religiosos que acolhiam aos doentes e aos incapacitados, sobretudo em momentos agudos, em que as comunidades se sentiam ameaçadas e de onde resultavam avultadas mortandades.

As ordens monásticas, após o advento do Cristianismo, criaram espaços físicos nos seus conventos para assistir aos enfermos, aos velhos e aos desamparados. Na mesma linha surgiram instituições ligadas ou não às ordens religiosas voltadas para tais fins; entre elas, servem de claros exemplos as Santas Casas de Misericórdia e as Sociedades de Beneficência.

O aumento crescente da população, sobretudo dos desvalidos, obrigou os responsáveis pelos governos a organizar, em locais apropriados, unidades que pudessem acomodar os enfermos e facilitar a assistência que se pretendia prestar a eles. Surgiram, assim, os hospitais.

O sentido precípuo de suas intenções, como a própria palavra latina que lhe deu origem - "hospitale"- designa, obedecendo a princípios compassivos que os inspiravam e que se constituíam na sua maior razão, era dar, antes de tudo, o teto, o leito, o alimento e o desvêlo aos necessitados.

Assim, os locais onde se cumpriam tais misteres passaram a ser conhecidos como "hospital", isso é, - hospedaria, hotel; que os diferenciavam de estabelecimentos com iguais nomes, porque neles se praticava, como regra essencial, a caridade. Na história da Medicina, em muitos países e cidades, as instituições com tal perfil se converteram em marcos indeléveis. A Clínica do Hotel de Deus, criada por volta do século XVI em Paris e que ainda hoje continua o seu respeitável caminho, é um exemplo superior da prática da Medicina como ciência, filosofia e arte.

Esse conceito de hospital persistiu durante séculos - XVI, XVII, XVIII, XIX e XX e, de um certo modo, ao atual que se inicia. Ao longo desses séculos, os hospitais acolhiam, quase na sua totalidade, as pessoas mais empobrecidas. Os cidadãos das classes sociais bem dotadas de poder e de economia, quando adoeciam, permaneciam em suas próprias residências; nelas nasciam os seus filhos; em seus leitos viviam as horas lentas e sacrificadas do caminho do sofrimento; e também, quando chegava o momento final, rodeado de seus familiares e amigos, morriam.

Aos poucos, a partir da primeira metade do século XX, porém, este dispositivo foi se transformando. Algumas razões podem ser apontadas:

  • extraordinário avanço dos conhecimentos sobre a natureza das doenças e, em conseqüência, a imperiosa necessidade do incremento de novos métodos diagnósticos e terapêuticos;
  • a indústria construindo novos e sofisticados aparelhos, cujos modelos são  rapidamente renovados, obrigando a que os hospitais, para acompanhar esse ritmo, se organizassem administrativa e economicamente, cada vez mais;
  • o crescente esclarecimento das populações, principalmente aquelas das regiões mais pobres, dos seus direitos em que se destacam o acesso à prevenção e ao tratamento das doenças. É verdade que a sociedade já havia sido alertada disso desde o século XVIII. Primeiro, com a divulgação dos princípios libertários oriundos da Revolução Francesa e da Carta Democrática e de Cidadania da Independência dos Estados Unidos. Depois, em 1948, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, legitimada pela Organização Mundial da Saúde; a que se seguiram, estimulados pelos terríveis exemplos de desrespeito à vida durante e após a Segunda Grande Guerra e pelos movimentos revolucionários socialistas e as repressões conseqüentes, os congressos de Helsinque e de Tóquio que deram os fundamentos a uma nova ciência: a Bioética;
  • a doença e o sofrimento passaram a ter como objetivo primordial razões econômicas, muitas vezes espúrias, através de empresas, de indústrias, de modelos jurídicos ou outros que tais. Desfiguraram-se, assim, regras fundamentais no relacionamento médico/paciente; criaram-se modelos que fugiam às práticas médicas até então vigentes e que se subordinavam aos princípios hipocráticos. Serve de exemplo, entre outros, o comportamento de determinados interessados, instituições ou indivíduos, que aproveitando-se muitas vezes do sensacionalismo da mídia, inclinam-se pela exploração de um tema de conceituação difícil: o erro médico. Em contrapartida, o profissional se ampara em uma prática discutível: "a medicina defensiva", isto é, a realização excessiva de exames subsidiários como uma forma de proteção contra possíveis ações jurídicas.  O encarecimento da Medicina é uma conseqüência clara;
  • a complexidade de administração das organizações hospitalares;

Vive-se, hoje, uma situação incômoda, que divide a sociedade em dois campos, os quais se conflitam: o dos que têm acesso aos meios de assistência médica mais avançada, comunidades ricas e poderosas; constituem-se em uma minoria. E os que se situam fora desses limites, a  maioria, despossuída e, freqüentemente, aculturada.

Os hospitais da atualidade, considerados os seus perfis nas comunidades, sobretudo em regiões equivalentes às nossas, enfrentam, obrigatoriamente, condições quase sempre desalentadoras que os tornam incapazes de atuar com  eficiência. Não há como, isoladamente, culpar indivíduos, organizações, governos ou outros que atuam nesse espaço. É uma questão de consciência coletiva que deverá se impor no seu devido momento, alcançada à medida que a sociedade evolua também. A desigualdade de direitos foi sempre apanágio das coletividades humanas. É uma fatalidade; por mais que seja a evidência disso, não há como desfazê-lo por completo, porque é parte indissociável da natureza dos homens.

Modelos de hospitais   

Um fato importante na história das enfermidades do homem, o obrigou a criar um outro modelo: os "hospitais de isolamento", com os quais buscavam a proteção contra as doenças transmissíveis. A prática é antiga e precede, mesmo, a era pasteuriana. Assim, fica nítido que, até então, se definiram as seguintes situações:

  • hospitais públicos, emergenciais ou não, os quais, quase sempre, atendem aos indivíduos destituídos de recursos;
  • hospitais de isolamento, quando se presumia ser o paciente portador de doença transmissível;
  • hospitais destinados a receber tipos especiais de doentes, como servem de exemplo os hospitais psiquiátricos;
  • os domicílios, onde, de preferência, os mais abastados eram assistidos;
  • hospitais de referência, vocacionados e capazes de realizar procedimentos especializados;
  • hospitais universitários, voltados para a formação de profissionais médicos e pesquisadores, embora, também, com a responsabilidade de atividades assistenciais, cumprindo, pois, necessariamente, importante papel social.

Características de um hospital na atualidade

  • ASSISTIR aos pacientes, obedecendo, antes de tudo, aos princípios éticos de respeito à condição humana. Depois, utilizar a tecnologia apropriada e disponível, com prudência, jamais esquecendo que a máquina apenas informa, mas está na mente e no coração do médico apontar os caminhos.
  • PESQUISAR, à medida do possível, buscando conhecimentos novos, estabelecendo ao menos o perfil da patologia regional. É imprescindível que assim seja, pois esta é a melhor maneira de qualificar um hospital. Hoje, os centros mais avançados não duvidam disso, e, muitas vezes, foi através da pesquisa que se projetaram e definiram a sua credibilidade.
  • EDUCAR, amparar vocações. Ter a visão do futuro, compreendendo que caberá às gerações vindouras aplainar os caminhos e vencer os desafios.
  • MANTER AS FONTES DE INFORMAÇÃO ATUALIZADAS. O progresso trouxe consigo mensagens novas. As bibliotecas não são mais áreas estáticas ocupadas pelas publicações, esperando, passivamente, que os interessados cheguem até elas.Vivemos a época da Informática, que acena os novos ares de dinamismo, de comunicação fácil entre os centros de formação do mundo inteiro, que se interligam, permitindo, assim, serem acessados a quem se dispuser a fazê-lo.
  • APROXIMAR o hospital, tanto quanto possível, das comunidades, principalmente as que estão em torno dele, com o objetivo precípuo da promoção da saúde;
  • ESTIMULAR medidas de prevenção de doenças, afinal, a expressão maior do esforço da Medicina dos anos vindouros.

Dr. Rodolfo Teixeira, Infectologista e Coordenador do Centro de Estudos Egas Moniz

 
         
 
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