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Nos primórdios, antes e muito tempo depois da era hipocrática, quando um
traço de profundo misticismo relacionava o sofrimento humano à direta e
inflexível vontade das divindades, que assim punia as criaturas julgadas
faltosas, eram os templos religiosos que acolhiam aos doentes e aos
incapacitados, sobretudo em momentos agudos, em que as comunidades se
sentiam ameaçadas e de onde resultavam avultadas mortandades.
As ordens monásticas, após o advento do Cristianismo, criaram espaços
físicos nos seus conventos para assistir aos enfermos, aos velhos e aos
desamparados. Na mesma linha surgiram instituições ligadas ou não às ordens
religiosas voltadas para tais fins; entre elas, servem de claros exemplos as
Santas Casas de Misericórdia e as Sociedades de Beneficência.
O aumento crescente da população, sobretudo dos desvalidos, obrigou os
responsáveis pelos governos a organizar, em locais apropriados, unidades que
pudessem acomodar os enfermos e facilitar a assistência que se pretendia
prestar a eles. Surgiram, assim, os hospitais.
O sentido precípuo de suas intenções, como a própria palavra latina que
lhe deu origem - "hospitale"- designa, obedecendo a princípios compassivos
que os inspiravam e que se constituíam na sua maior razão, era dar, antes de
tudo, o teto, o leito, o alimento e o desvêlo aos necessitados.
Assim, os locais onde se cumpriam tais misteres passaram a ser conhecidos
como "hospital", isso é, - hospedaria, hotel; que os diferenciavam de
estabelecimentos com iguais nomes, porque neles se praticava, como regra
essencial, a caridade. Na história da Medicina, em muitos países e cidades,
as instituições com tal perfil se converteram em marcos indeléveis. A
Clínica do Hotel de Deus, criada por volta do século XVI em Paris e que
ainda hoje continua o seu respeitável caminho, é um exemplo superior da
prática da Medicina como ciência, filosofia e arte.
Esse conceito de hospital persistiu durante séculos - XVI, XVII, XVIII,
XIX e XX e, de um certo modo, ao atual que se inicia. Ao longo desses
séculos, os hospitais acolhiam, quase na sua totalidade, as pessoas mais
empobrecidas. Os cidadãos das classes sociais bem dotadas de poder e de
economia, quando adoeciam, permaneciam em suas próprias residências; nelas
nasciam os seus filhos; em seus leitos viviam as horas lentas e sacrificadas
do caminho do sofrimento; e também, quando chegava o momento final, rodeado
de seus familiares e amigos, morriam.
Aos poucos, a partir da primeira metade do século XX, porém, este
dispositivo foi se transformando. Algumas razões podem ser apontadas:
- extraordinário avanço dos conhecimentos sobre a natureza das doenças e,
em conseqüência, a imperiosa necessidade do incremento de novos métodos
diagnósticos e terapêuticos;
- a indústria construindo novos e sofisticados aparelhos, cujos modelos
são rapidamente renovados, obrigando a que os hospitais, para
acompanhar esse ritmo, se organizassem administrativa e economicamente,
cada vez mais;
- o crescente esclarecimento das populações, principalmente aquelas das
regiões mais pobres, dos seus direitos em que se destacam o acesso à
prevenção e ao tratamento das doenças. É verdade que a sociedade já havia
sido alertada disso desde o século XVIII. Primeiro, com a divulgação dos
princípios libertários oriundos da Revolução Francesa e da Carta
Democrática e de Cidadania da Independência dos Estados Unidos. Depois, em
1948, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, legitimada pela
Organização Mundial da Saúde; a que se seguiram, estimulados pelos
terríveis exemplos de desrespeito à vida durante e após a Segunda Grande
Guerra e pelos movimentos revolucionários socialistas e as repressões
conseqüentes, os congressos de Helsinque e de Tóquio que deram os
fundamentos a uma nova ciência: a Bioética;
- a doença e o sofrimento passaram a ter como objetivo primordial razões
econômicas, muitas vezes espúrias, através de empresas, de indústrias, de
modelos jurídicos ou outros que tais. Desfiguraram-se, assim, regras
fundamentais no relacionamento médico/paciente; criaram-se modelos que
fugiam às práticas médicas até então vigentes e que se subordinavam aos
princípios hipocráticos. Serve de exemplo, entre outros, o comportamento de
determinados interessados, instituições ou indivíduos, que aproveitando-se
muitas vezes do sensacionalismo da mídia, inclinam-se pela exploração de um
tema de conceituação difícil: o erro médico. Em contrapartida, o
profissional se ampara em uma prática discutível: "a medicina defensiva",
isto é, a realização excessiva de exames subsidiários como uma forma de
proteção contra possíveis ações jurídicas. O encarecimento da
Medicina é uma conseqüência clara;
- a complexidade de administração das organizações hospitalares;
Vive-se, hoje, uma situação incômoda, que divide a sociedade em dois
campos, os quais se conflitam: o dos que têm acesso aos meios de assistência
médica mais avançada, comunidades ricas e poderosas; constituem-se em uma
minoria. E os que se situam fora desses limites, a maioria,
despossuída e, freqüentemente, aculturada.
Os hospitais da atualidade, considerados os seus perfis nas comunidades,
sobretudo em regiões equivalentes às nossas, enfrentam, obrigatoriamente,
condições quase sempre desalentadoras que os tornam incapazes de atuar
com eficiência. Não há como, isoladamente, culpar indivíduos,
organizações, governos ou outros que atuam nesse espaço. É uma questão de
consciência coletiva que deverá se impor no seu devido momento, alcançada à
medida que a sociedade evolua também. A desigualdade de direitos foi sempre
apanágio das coletividades humanas. É uma fatalidade; por mais que seja a
evidência disso, não há como desfazê-lo por completo, porque é parte
indissociável da natureza dos homens.
Modelos de hospitais
Um fato importante na história das enfermidades do homem, o obrigou a
criar um outro modelo: os "hospitais de isolamento", com os quais buscavam a
proteção contra as doenças transmissíveis. A prática é antiga e precede,
mesmo, a era pasteuriana. Assim, fica nítido que, até então, se definiram as
seguintes situações:
- hospitais públicos, emergenciais ou não, os quais, quase sempre,
atendem aos indivíduos destituídos de recursos;
- hospitais de isolamento, quando se presumia ser o paciente portador de
doença transmissível;
- hospitais destinados a receber tipos especiais de doentes, como servem
de exemplo os hospitais psiquiátricos;
- os domicílios, onde, de preferência, os mais abastados eram
assistidos;
- hospitais de referência, vocacionados e capazes de realizar
procedimentos especializados;
- hospitais universitários, voltados para a formação de profissionais
médicos e pesquisadores, embora, também, com a responsabilidade de
atividades assistenciais, cumprindo, pois, necessariamente, importante
papel social.
Características de um hospital na atualidade
- ASSISTIR aos pacientes, obedecendo, antes de tudo, aos
princípios éticos de respeito à condição humana. Depois, utilizar a
tecnologia apropriada e disponível, com prudência, jamais esquecendo que a
máquina apenas informa, mas está na mente e no coração do médico apontar os
caminhos.
- PESQUISAR, à medida do possível, buscando
conhecimentos novos, estabelecendo ao menos o perfil da patologia regional.
É imprescindível que assim seja, pois esta é a melhor maneira de qualificar
um hospital. Hoje, os centros mais avançados não duvidam disso, e, muitas
vezes, foi através da pesquisa que se projetaram e definiram a sua
credibilidade.
- EDUCAR, amparar vocações. Ter a visão do futuro,
compreendendo que caberá às gerações vindouras aplainar os caminhos e
vencer os desafios.
- MANTER AS FONTES DE INFORMAÇÃO ATUALIZADAS. O
progresso trouxe consigo mensagens novas. As bibliotecas não são mais áreas
estáticas ocupadas pelas publicações, esperando, passivamente, que os
interessados cheguem até elas.Vivemos a época da Informática, que acena os
novos ares de dinamismo, de comunicação fácil entre os centros de formação
do mundo inteiro, que se interligam, permitindo, assim, serem acessados a
quem se dispuser a fazê-lo.
- APROXIMAR o hospital, tanto quanto possível, das
comunidades, principalmente as que estão em torno dele, com o objetivo
precípuo da promoção da saúde;
- ESTIMULAR medidas de prevenção de doenças, afinal, a
expressão maior do esforço da Medicina dos anos vindouros.
Dr. Rodolfo Teixeira, Infectologista e Coordenador do Centro
de Estudos Egas Moniz
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