Notícias  
"O Brasil se encontra na vanguarda da pesquisa e desenvolvimento em terapias celulares"/ Abr 2005
         
 
   
"O Brasil se encontra na vanguarda da pesquisa e desenvolvimento em terapias celulares"/ Abr 2005
 
 
Com a aprovação da Lei de Biossegurança, o país foi tomado por uma onda de apreensão e esperança em torno da possibilidade de que a terapia com células-tronco possa trazer a cura para diversas doenças. O Jornal Imagem Real entrevista o Coordenador do Centro de Transplante de Medula Óssea da Bahia (CTMO-BA), Dr. Ronald Pallotta, que esclarece algumas questões sobre o assunto.
 
 

Jornal Imagem Real - Qual a importância da aprovação da lei?
Dr. Ronald Pallotta - A aprovação da Lei de Biossegurança permitiu que a ciência alimentasse a esperança de portadores de doenças crônico-degenerativas para as quais, em sua grande maioria, a medicina não dispõe atualmente de terapias eficazes, com a perspectiva da utilização terapêutica das células-tronco embrionárias. Neste longo percurso, foram superados alguns obstáculos, aparentemente intransponíveis, como as divergências religiosas e políticas envolvidas neste tema.

IR - O que é célula-tronco?
RP - A célula-tronco é um tipo de célula que pode se diferenciar e constituir diferentes tecidos no organismo, além de ter a capacidade de auto-replicação (gerar cópias idênticas de si mesma). Podem ser classificadas como:

  • totipotentes ou embrionárias (conseguem se diferenciar em todos os tecidos)
  • pluripotentes ou multipotentes (conseguem se diferenciar em quase todos os tecidos, com exceção da placenta e anexos embrionários)
  • oligopotentes (conseguem se diferenciar em alguns tecidos)
  • unipotentes (conseguem se diferenciar em um único tecido)

IR - O que é terapia com célula-tronco?
RP - É uma terapia celular para tratar doenças e lesões através da substituição de tecidos doentes por células saudáveis. Por exemplo o transplante de medula óssea para tratar leucemia. Neste método comprovadamente eficiente, a medula óssea do doador contém células-tronco adultas que quando colocadas no paciente com leucemia após preparo adequado irão fabricar novas células sangüíneas saudáveis.

IR - Quais as doenças que se beneficiam da terapia celular?
RP - Atualmente podemos afirmar, apenas com a experiência das células-tronco adultas utilizadas na terapia celular do transplante de medula óssea, uma vez que esta terapêutica não é experimental e sim estabelecida e fundamental para pacientes portadores de:

  • Doenças oncológicas (ex: linfomas de Hodgkin e não Hodgkin, leucemias agudas e crônicas, mieloma múltiplo, mielodisplasias)
  • Doenças hematológicas (ex: anemia falciforme, talassemia, hemoglobinúria paroxística noturna, aplasia de medula óssea)
  • Doenças imunológicas (ex: imunodeficiências congênitas, e potencialmente lupus, artrite reumatóide, esclerose múltipla, diabetes)

Com o sucesso dos estudos experimentais na área de cardiologia do Dr. Ricardo Ribeiro e, de neurologia, da Dra Érica Kalil, estabeleceu-se a possibilidade de se utilizar células adultas do próprio paciente para seu tratamento. Com isso o universo se abre também para pacientes portadores de doenças degenerativas como esclerose lateral amiotrófica, hepatopatias crônicas, pneumopatias, acidentes vasculares, disfunções oftalmológicas, infartos etc.

IR - O que já tem sido feito em termos de pesquisa desse tipo?
RP - O Brasil se encontra na vanguarda da pesquisa e desenvolvimento em terapias celulares, principalmente utilizando células-tronco adultas, que visam regenerar órgãos e tecidos em pacientes com doenças crônico degenerativas diversas. Na Bahia, centros coordenados pela Fiocruz, seguem protocolos de pesquisa em diversas áreas como cardiologia, gastroenterologia, neurologia, pneumologia e reumatologia. A potencial criação de um centro de terapia celular impulsionará ainda mais estes estudos. Porém a euforia e a expectativa devem ser moduladas pela paciência e cautela, uma vez que a ciência ainda não demonstrou a segurança e mesmo a eficácia da utilização de células-tronco embrionárias em seres humanos. As experiências adquiridas com estes estudos utilizando células-tronco adultas deverão nortear as pesquisas com as células-tronco embrionárias.

IR - Quais as perspectivas para a medicina nos próximos anos?
RP - Diante do exposto anteriormente é clara a necessidade de se realizar estudos com células-tronco embrionárias, uma vez que elas possuem um potencial que nenhuma outra população de células-tronco possui e principalmente por que não conhecemos o suficiente sobre sua biologia para podermos utilizá-las de modo seguro e eficaz. Este investimento científico está sendo realizado em vários países do mundo, e o Brasil tem certamente capacitação para trazer contribuições valiosas nesta área. Neste processo, é fundamental a observação dos princípios éticos que regem a pesquisa.

Os modelos para ensaios clínicos devem ser embasados cientificamente e aprovados pelos comitês de ética institucional (CEP) e pelo nacional (CONEP) antes de serem estabelecidos e aplicados pelos profissionais tecnicamente habilitados à população. A população leiga e desesperada deve ser alertada de que todos os protocolos utilizando células-tronco em seres humanos são experimentais, para protegê-la de atos precipitados e irresponsáveis.

 
         
 
© Real Sociedade Portuguesa de Beneficência Dezesseis de Setembro