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Jornal Imagem Real - Qual a importância da aprovação da
lei?
Dr. Ronald Pallotta - A aprovação da Lei de Biossegurança
permitiu que a ciência alimentasse a esperança de portadores de doenças
crônico-degenerativas para as quais, em sua grande maioria, a medicina não
dispõe atualmente de terapias eficazes, com a perspectiva da utilização
terapêutica das células-tronco embrionárias. Neste longo percurso, foram
superados alguns obstáculos, aparentemente intransponíveis, como as
divergências religiosas e políticas envolvidas neste tema.
IR - O que é célula-tronco?
RP - A célula-tronco é um tipo de célula que pode se
diferenciar e constituir diferentes tecidos no organismo, além de ter a
capacidade de auto-replicação (gerar cópias idênticas de si mesma). Podem
ser classificadas como:
- totipotentes ou embrionárias (conseguem se diferenciar em todos os
tecidos)
- pluripotentes ou multipotentes (conseguem se diferenciar em quase todos
os tecidos, com exceção da placenta e anexos embrionários)
- oligopotentes (conseguem se diferenciar em alguns tecidos)
- unipotentes (conseguem se diferenciar em um único tecido)
IR - O que é terapia com célula-tronco?
RP - É uma terapia celular para tratar doenças e lesões
através da substituição de tecidos doentes por células saudáveis. Por
exemplo o transplante de medula óssea para tratar leucemia. Neste método
comprovadamente eficiente, a medula óssea do doador contém células-tronco
adultas que quando colocadas no paciente com leucemia após preparo adequado
irão fabricar novas células sangüíneas saudáveis.
IR - Quais as doenças que se beneficiam da terapia
celular?
RP - Atualmente podemos afirmar, apenas com a experiência
das células-tronco adultas utilizadas na terapia celular do transplante de
medula óssea, uma vez que esta terapêutica não é experimental e sim
estabelecida e fundamental para pacientes portadores de:
- Doenças oncológicas (ex: linfomas de Hodgkin e não Hodgkin, leucemias
agudas e crônicas, mieloma múltiplo, mielodisplasias)
- Doenças hematológicas (ex: anemia falciforme, talassemia,
hemoglobinúria paroxística noturna, aplasia de medula óssea)
- Doenças imunológicas (ex: imunodeficiências congênitas, e
potencialmente lupus, artrite reumatóide, esclerose múltipla,
diabetes)
Com o sucesso dos estudos experimentais na área de cardiologia do Dr.
Ricardo Ribeiro e, de neurologia, da Dra Érica Kalil, estabeleceu-se a
possibilidade de se utilizar células adultas do próprio paciente para seu
tratamento. Com isso o universo se abre também para pacientes portadores de
doenças degenerativas como esclerose lateral amiotrófica, hepatopatias
crônicas, pneumopatias, acidentes vasculares, disfunções oftalmológicas,
infartos etc.
IR - O que já tem sido feito em termos de pesquisa desse
tipo?
RP - O Brasil se encontra na vanguarda da pesquisa e
desenvolvimento em terapias celulares, principalmente utilizando
células-tronco adultas, que visam regenerar órgãos e tecidos em pacientes
com doenças crônico degenerativas diversas. Na Bahia, centros coordenados
pela Fiocruz, seguem protocolos de pesquisa em diversas áreas como
cardiologia, gastroenterologia, neurologia, pneumologia e reumatologia. A
potencial criação de um centro de terapia celular impulsionará ainda mais
estes estudos. Porém a euforia e a expectativa devem ser moduladas pela
paciência e cautela, uma vez que a ciência ainda não demonstrou a segurança
e mesmo a eficácia da utilização de células-tronco embrionárias em seres
humanos. As experiências adquiridas com estes estudos utilizando
células-tronco adultas deverão nortear as pesquisas com as células-tronco
embrionárias.
IR - Quais as perspectivas para a medicina nos próximos
anos?
RP - Diante do exposto anteriormente é clara a necessidade
de se realizar estudos com células-tronco embrionárias, uma vez que elas
possuem um potencial que nenhuma outra população de células-tronco possui e
principalmente por que não conhecemos o suficiente sobre sua biologia para
podermos utilizá-las de modo seguro e eficaz. Este investimento científico
está sendo realizado em vários países do mundo, e o Brasil tem certamente
capacitação para trazer contribuições valiosas nesta área. Neste processo, é
fundamental a observação dos princípios éticos que regem a pesquisa.
Os modelos para ensaios clínicos devem ser embasados cientificamente e
aprovados pelos comitês de ética institucional (CEP) e pelo nacional (CONEP)
antes de serem estabelecidos e aplicados pelos profissionais tecnicamente
habilitados à população. A população leiga e desesperada deve ser alertada
de que todos os protocolos utilizando células-tronco em seres humanos são
experimentais, para protegê-la de atos precipitados e irresponsáveis.
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