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A Cardiologia no Novo Milênio / Agosto 2005
         
 
   
A Cardiologia no Novo Milênio / Agosto 2005
 
 
Conferência proferida por Dr. José Péricles Esteves na abertura dos trabalhos do XVII Congresso de Cardiologia do Estado da Bahia, XXV Congresso Norte Nordeste de Cardiologia e XVII Congresso de Cirurgia Vascular, eventos realizados no período de 8 a 11 de junho no Centro de Convenções da Bahia.
 
 

"Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. Há movimento, é natural, surge espontaneamente. Por esta razão, a transformação do antiquado torna-se fácil, as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, em nenhum dano". Esta sentença milenar chinesa, de "O Livro das Mutações" se aplica à atual conjuntura médica. A substituição de velhos paradigmas é lenta. Mas é perceptível nos quatro cantos do mundo.

Há tempos a História nos ensina sobre condutas anacrônicas, sejam na Política, sejam na Religião. O nacionalismo exacerbado e o fanatismo religioso, sempre presentes, têm o fator econômico como catalisador para a persistência da discórdia na Política e na Religião.

O investimento em armas é descomunal. A hegemonia norte-americana tem o mundo sob ameaça. Argumentando proteger a comunidade internacional do terrorismo, os EEUU já ocuparam o Afeganistão e o Iraque. Se por um lado, vivemos essa realidade sinistra da escalada guerreira neste novo milênio, por outro, vislumbramos um momento histórico novo - A mobilização mundial contra essa ofensiva bélica. Há manifestações pela paz incorporadas ao dia-a-dia, em todos os continentes, sejam de ONG´s, sejam espontâneas das populações penalizadas pela violência.

Esses movimentos sinalizam uma forma salutar de resistência dos povos contra a Guerra, muito embora grande parte do aprendizado atual na Medicina que praticamos venha dos países guerreiros como os EEUU, a Alemanha, a Itália e o Japão, protagonistas principais da 2a Guerra Mundial.

Curioso é o conhecimento de que alguns ensinamentos surgiram em decorrência da Guerra, como a aplicação de processos de física nuclear, que levaram à construção da bomba atômica e na Medicina que nos levaram ao diagnóstico de doenças tendo como instrumento a Medicina Nuclear.

Mas é obvio que a Guerra nunca poderá ser um meio para se pensar em progresso da Medicina. Outro dilema é a relação da Religião com a Medicina. Há tempos estamos compartilhando de conflitos entre a Religião e a Ciência. Um exemplo famoso, no século XVII, é o da Igreja Católica lutando para manter a sua influência, restabelecendo os Tribunais da Inquisição. A história de Galileu é emblemática. Para escapar da morte ele renunciou a suas idéias. Tornou-se clássica sua frase: "Contudo, ela se move". 400 anos A.C., Hipócrates, o Pai da Medicina já nos alertava sobre isso. Um de seus aforismos diz: "A Medicina deveria abandonar as práticas religiosas e tornar-se  uma ciência experimental".

Nos dias de hoje assistimos a interferência de autoridades religiosas sobre temas médicos como as pesquisas com células-tronco, sobre a eutanásia e a morte encefálica. Sabemos que a Religião é o "ópio do povo". Tem uma função medicinal, embora não contribua para seu desenvolvimento. A oração ajuda na recuperação dos pacientes que a pratica. Isto evidencia que a espiritualidade pode ser exercida fora dos compromissos com a Religião enquanto instituição. Não há como não aceitá-la.

No entanto, devemos nos pronunciar quando, por exemplo, um representante do Ministério Público se manifesta frente ao STF, sobre assunto da Lei de Biossegurança, classificando o uso de embriões congelados em pesquisa como anticonstitucional, baseado em dogmas religiosos.

Reporto-me agora a Capra, filósofo, em seu livro O Ponto de Mutação. Ele nos diz algo pertinente à nossa conjuntura:
"Os chineses, que sempre tiveram uma visão inteiramente dinâmica do mundo e uma percepção aguda da História, parecem estar bem cientes dessa profunda conexão entre crise e mudança" Capra salienta dentro de uma abordagem sistêmica do conhecimento, que todo programa de assistência à saúde, incluindo a medicina ocidental moderna, é fruto de sua história e existe dentro de um certo contexto ambiental e cultural. Como os contextos são mutantes, os programas de assistência à saúde seguem igual movimento, adaptando-se às novas demandas econômicas.

Qual a situação no Brasil? Sabemos que nossas escolas nos formam baseadas no modelo norte-americano e de países da Europa Ocidental. Nossos formadores de opinião se aprimoram em países como Estados Unidos, Alemanha, Itália.  Aprendem como aplicar uma Medicina Tecnológica, com forte interferência na relação médico-paciente e de alto custo. O tempo, antes dedicado ao paciente, foi dividido para se cuidar também das máquinas. O fato é que acatamos esse modelo econômico e sua filosofia.

Entramos num Novo Milênio. E o Novo Cardiologista, aquele que busca se renovar a cada dia, precisa parar e refletir. Perceber o ponto de mutação. Saber que é tempo de mudar, de ter um comportamento mais participativo.

Em conseqüência, a Cardiologia neste momento está a exigir 2 compromissos de todos nós: Compromisso Ético - Ir além do compromisso com o juramento de Hipócrates - Aliviar a Dor, e se Possível, Curar. Acrescentando o enorme valor da Prevenção, que, aliás, não é um conceito novo. No milênio anterior a Hipócrates os chineses já alertavam para a importância da Medicina Preventiva. E esta, era exclusiva dos médicos sábios. Devemos utilizar bem o conhecimento científico ao alcance da nossa especialidade, desde a prevenção em Cardiologia, até a aplicação de novos fármacos e intervenções. Tudo baseado na Evidência Científica: A valorização do método, da experiência clínica e a sua aplicação.

Compromisso Holístico - Entender que não basta a Ética, pois sem organização o esforço individual ficará restrito ao Compromisso Ético e a Medicina ficará à mercê da força do mercado, perdendo a oportunidade de aplicar o conhecimento de modo racional. Faz-se essencial uma melhor divisão dos recursos, visando um maior alcance para a população, ao invés de muitos recursos nas mãos de poucos, como nas economias dos países de 3º mundo.

Daí a fundamental importância de uma Sociedade Médica organizada, ciente de seus objetivos, não valorizando apenas a qualidade tecnicista, elitista.Qual Medicina devemos praticar? A prática atual é muito dependente da tecnologia. O alto custo de sua aplicação está fora do alcance da maioria dos nossos pacientes. O Estado não tem agilidade ou capacidade de rever e mudar os critérios obsoletos vigentes. Portanto, eu diria, não basta ser médico, tem que participar. Saber que estamos em crise, e que a crise é de percepção para incorporar novos paradigmas.

O absoluto em Medicina não existe. Um resultado dito ótimo, ou "otimizado", pode se tornar ruim se repetido sem limite. Devemos analisar em conjunto como usar o cobertor curto da Medicina, e decidir como estendê-lo. Cada um de nós segurando firmemente uma parte desse cobertor.

Nesta hora, cabe lembrar os versos do poeta Antônio Machado:"caminhante, não há caminho, se faz o caminho ao andar"

 

Coordenador da Unidade Coronariana do Hospital Português, Dr. José Péricles Esteves é Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, foi presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado da Bahia entre os anos de 2002 / 2004 e é o Presidente-Futuro da Sociedade Brasileira de Cardiologia para o biênio 2006-2007.

 

 
         
 
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