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Artigo Científico: transplante renal — Hospital Português da Bahia

22 de novembro de 2004

Artigo Científico: transplante renal

22 November 2004

O transplante de órgãos foi um dos principais avanços da medicina no século XX. Os transplantes de rim são uma prática corriqueira em muitos centros médicos, em todos os continentes.

No próximo mês de dezembro será comemorado o cinqüentenário do primeiro transplante de rim bem sucedido. No Brasil existem muitos centros bem equipados com equipes experientes e treinadas para reduzir ainda mais as longas filas de espera por um transplante. Aqui e no resto do mundo o fator limitante é a insuficiência de órgãos para atender às necessidades da comunidade de pacientes portadores de insuficiência renal crônica. O envelhecimento da população, o aumento da incidência de doenças como hipertensão arterial e diabetes mellitus tem aumentado a insuficiência renal crônica no país.

Os transplantes renais são os mais praticados no Brasil. No ano passado foram 3.126 casos. Esta estatística positiva, em relação a outros órgãos, deve ser atribuída a dois fatores: um grande percentual dos transplantes renais (57%, em 2003) é realizado com doadores vivos aparentados, o que aumenta de modo significante a disponibilidade de rins para transplante. O segundo é a possibilidade de o paciente portador de insuficiência renal crônica ter um longa sobrevida em programa de diálise. Portanto, pode esperar anos por um transplante.

Os resultados dos transplantes renais são excelentes. Quando o doador é vivo aparentado, são superiores aos transplantes com rim de cadáver. Doação de rim entre parentes é permitido até o quarto grau (primo carnal), desde que o doador seja maior de idade, tenha  grupo sanguíneo e testes de compatibilidade imunológica adequados.Os esposos(as) podem doar como se fossem parentes. A lei permite doações altruísticas de não parentes, mas emocionalmente relacionados. Nesses casos, é necessária autorização judicial.

O doador deve ser saudável, ter função renal normal e não apresentar, durante extensa e minuciosa avaliação, evidências de risco de doença renal ou de outros órgãos vitais. É obrigatório que a doação seja espontânea, puramente altruística, sem nenhum indício de transação comercial. No ano passado, 43% dos transplantes renais realizados no Brasil usaram rins de cadáver (4,3 doadores/milhão de habitantes). O ideal seria atingir 20 doadores/milhão de habitantes.

A superação do desafio de reduzir o tempo de espera por um transplante está, portanto, ao alcance da própria comunidade que é quem oferta os órgãos para transplante, através da doação intervivos ou dos órgãos de parentes em morte encefálica. Ao governo compete organizar e operar o Sistema Nacional de Transplante, credenciar e autorizar hospitais e equipes especializadas e prover de recursos o SUS, para arcar com a maioria dos custos desses procedimentos de alta complexidade.

Os grandes avanços conquistados, ao longo de meio século, tornaram a experiência do transplante renal segura e confiável. A técnica cirúrgica está padronizada e consagrada em todo mundo. Os riscos de rejeição aguda foram reduzidos pela disponibilidade de novas drogas altamente eficientes. Hoje é possível vislumbrar o transplante renal como uma terapia com bons resultados em longo prazo. A possibilidade de re-transplantar um rim perdido aumenta, ainda mais, o horizonte terapêutico para os pacientes portadores de insuficiência renal crônica.

Dr. Ivo Coelho, Coordenador do Programa de Transplante Renal do Hospital Português