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Mitos e verdades sobre a tecnologia digital — Hospital Português da Bahia

3 de fevereiro de 2015

Mitos e verdades sobre a tecnologia digital

03 February 2015

Smartphones, tablets, notebooks, entre outros equipamentos eletrônicos móveis, hoje, são uma realidade na vida de pessoas de todas as idades. Se por um lado facilitam o acesso à informação e agilizam a comunicação, por outro, geram controvérsias quanto à sua forma de uso e os possíveis danos causados à saúde. Ansiedade, comprometimento da vida social, dependência tecnológica, lesões por esforço repetitivo e até risco de câncer são temas de estudos científicos que buscam investigar as consequências físicas e psíquicas geradas pelo uso desregrado desse aparato digital. E enquanto entidades como a Sociedade Canadense de Pediatria recomendam o limite de duas horas diárias para que jovens de seis a 18 anos permaneçam conectados à internet, na prática, cresce o número de novos usuários de ferramentas eletrônicas nas diferentes gerações. Para esclarecer o que há de mito ou verdade nas consequências do comportamento atual estabelecido com as novas tecnologias, a Imagem Real consultou especialistas do Hospital Português nas áreas de neurologia, psicologia e ortopedia. Confira o que eles dizem a esse respeito!

Dependência tecnológica é um fenômeno psíquico? Verdade!

Cada vez mais presentes no cotidiano de crianças e adultos, as ferramentas digitais têm ocupado um importante espaço no campo psicossocial de diferentes gerações. Tal fato se torna preocupante quando o celular, o vídeo game e o computador, por exemplo, deixam de ser meras ferramentas de entretenimento ou trabalho para se tornarem elementos fundamentais à condição de bem-estar físico e mental. Estudos nessa área apontam uma associação direta entre a manifestação de dependência tecnológica e os transtornos de comportamento como ansiedade, falta de concentração, dependência emocional, depressão, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), transtorno de déficit de atenção, entre outros. “As relações do sujeito com os objetos são perpassadas pelo desejo. Buscamos constantemente artefatos que proporcionem completude e bem-estar, ainda que ilusórios. Isso inclui o aparato tecnológico como objeto que materializa esse desejo”, avalia a psicóloga Elisa Teixeira.

Classificações diagnósticas de especialistas no assunto têm buscado ampliar a compreensão dos novos fenômenos clínicos da contemporaneidade relacionados ao binômio sujeito-tecnologia. A versão mais atual do Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais, elaborado pela Associação de Psiquiatria Americana (APA), prevê novas categorias, como as relacionadas ao uso da internet. Um exemplo é Adicção a Internet, isto é, o uso prejudicial da rede mundial de computadores, afetando mais de uma área da vida. Também, as repercussões psíquicas do uso excessivo de aparatos tecnológicos têm motivado o surgimento de neologismos como Nomophobia (ansiedade causada pela impossibilidade de uso do celular, seja porque o esqueceu em algum lugar ou porque a bateria descarregou) e Síndrome do Toque Fantasma (sensação de que o celular está vibrando, quando não está).

Para a especialista Luísa Meirelles, a origem desses comportamentos pode estar na busca desenfreada, e até mesmo compulsiva, pela satisfação. Nesse sentido, permanecer conectado constantemente é uma fonte de prazer e felicidade. No entanto, um estado de felicidade momentâneo, que camufla a fragilidade do ser humano, a solidão, as relações efêmeras, as compulsões, os transtornos de ansiedade, a depressão ou a angústia. “Não se trata de condenar a tecnologia, mas de atentar para as relações que estabelecemos com ela. Se passa a interferir na vida, gerando prejuízos na esfera social, pessoal, laboral e familiar, é importante buscar ajuda especializada”, orienta. 

Falar ao celular aumenta o risco de câncer: mito!

Em 2011, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), entidade vinculada à Organização Mundial de Saúde (OMS), levantou a possibilidade de que o uso de celulares aumentaria o risco de surgimento de tumores no cérebro. Contudo, advertiu sobre a necessidade de mais pesquisas para compreender as reações do corpo humano quando exposto à radiação de aparelhos celulares. Com este objetivo, um estudo realizado na Dinamarca analisou toda a população de usuários de celulares do país, mais de 400 mil pessoas. Após 13 anos (de 1982 a 1995), a pesquisa concluiu poucas evidências de efeitos cancerígenos causados por sinais de radiofrequência (emitidos pelos celulares). O risco para esses tipos de câncer segundo o estudo, não muda de acordo com o tempo de utilização do celular ou a sua tecnologia (analógica ou digital). Também não houve um número padronizado de casos com relevância estatística para qualquer subtipo de tumor do cérebro e do sistema nervoso.

A pesquisa derruba qualquer associação entre o uso de telefones celulares e o surgimento de tumores do cérebro, da glândula salivar, leucemia ou outros tipos de câncer, tendo sido publicada no JNCI: Journal of the National Cancer Institute (revista de oncologia da Universidade de Oxford, Inglaterra), em 2001, dentre outros. “Há muitos estudos controversos nessa área. Isso significa que alguns resultados são positivos e outros negativos. Porém, os que seguem uma metodologia mais consistente indicam não haver relação entre o uso do celular com a incidência de câncer”, observa Dr. Daniel Farias, médico neurologista do Hospital Português.

Olhar para telas digitais continuamente é causa comum de cefaleia: mito!

Quem permanece horas seguidas em frente às telas de computadores, celulares ou outros eletrônicos está mais propenso às dores de cabeça e vertigem? Estudos realizados nessa área apontam que as dores de cabeça são desencadeadas apenas quando há erros de refração grave e que desaparecem quando o problema ocular é corrigido.  A Classificação Internacional de Cefaleias, documento que orienta a atuação médica de profissionais vinculados às Sociedades Nacionais de Cefaleias e de Neurologia na definição do diagnóstico clínico, traz a informação de que as cefaleias atribuídas a erros de refração, ou seja, causadas por tarefas visuais prolongadas (como a exposição excessiva à luminosidade de equipamentos eletrônicos) são pouco frequentes na população. O neurologista do HP, Dr. Daniel Farias explica que esses pacientes representam um número muito pequeno entre as queixas relatadas em consultório médico ou atendimentos de emergência. “A cefaleia relacionada a erro de refração é um tipo específico de dor de cabeça dentre outras classificações, mas nem de longe corresponde às principais causas do problema”, informa.

Uso inadequado de tecnologias móveis gera lesões ortopédicas: verdade! 

Fonte de informação e entretenimento, os aparelhos digitais levam muitos usuários a permanecerem longas horas conectados à internet, sem sequer atentarem para os riscos da má postura. As consequências desse descuido podem ser danosas para a saúde, especialmente do ponto de vista ortopédico. Lesões por esforço repetitivo, problemas posturais, síndrome do túnel do carpo, tendinite (inflamação, lesão e inchaço nos tendões) são danos frequentemente associados ao uso prolongado de equipamentos tecnológicos, segundo o coordenador da Emergência de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Português, Dr. Nicolas Gerardo Gómez. “A má postura é causa comum de dores musculares na região cervical (cabeça e pescoço), costas, braços, punhos, mãos e dedos. Em longo prazo, provoca desde dores agudas ou crônicas até problemas incapacitantes, como lesões por esforço repetitivo (LER) e hérnias de disco cervical”, informa.

Para quem usa a cama, o sofá e até mesmo o chão enquanto navega na rede virtual, o ortopedista alerta que os problemas ortopédicos surgem com a realização de movimentos repetidos por horas seguidas, sem pausas ou apoio apropriado para a coluna e membros. A prevenção começa com a delimitação do tempo de uso desses aparelhos, atenção com a postura, alternância entre momentos de uso e descanso, e pequenas pausas para alongar e fortalecer a musculatura dos membros superiores, incluindo mãos e dedos – responsáveis pelo manuseio contínuo das tecnologias.