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Síndrome de Guillain-Barré — Hospital Português da Bahia

5 de agosto de 2015

Síndrome de Guillain-Barré

05 August 2015

De acordo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), já são 115 os casos de Síndrome de Guillain-Barré – SGB notificados na Bahia desde o primeiro registro, em maio deste ano. O boletim divulgado até o fechamento dessa edição, em 24 de julho, informava que dentre as notificações, 53 foram confirmadas, 49 apresentavam histórico de doença exantemática (infecciosa sistêmica) e quatro não. O maior número de casos foi confirmado em Salvador, 38 no total. Feira de Santana teve três casos e Valença dois. A Sesab informou ainda que 32 casos estão sendo investigados. Tamanha incidência de uma patologia considerada incomum pela literatura médica (1 a 4 casos por 100 mil habitantes) tem alarmado a população quanto aos riscos envolvidos e as formas de tratamento. Buscando esclarecer essas e outras questões, Dra. Jesângeli Dias, médica neurologista do Serviço de Neurologia do Hospital Português, e Dr. Alessandro Farias, médico líder da Infectologia da Instituição explicam esta doença autoimune que afeta o sistema neuromuscular.

 

Causas

Os deflagradores mais comuns da Síndrome de Guillain-Barré – SGB são os agentes infecciosos, que podem ser vírus ou bactérias. Frequentemente, a doença está associada à infecção por Campilobacter Jejuni, bactéria causadora da infecção intestinal (32%); seguida por Citomegalovírus (13%) e vírus Epstein Barr (10%), agentes que podem causar mononucleose infecciosa, podendo ainda estar associada a outras infecções virais, como Hepatite A, B ou C; Influenza (que gera a gripe) e HIV (causador da AIDS). Esses dados fazem parte do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Guillain-Barré do Ministério da Saúde, que revela que aproximadamente 70% dos pacientes com SGB tiveram alguma doença aguda pelo menos três semanas antes de desenvolverem a Síndrome.

Dra. Jesângeli Dias explica que do ponto de vista da fisiopatologia (área da ciência que investiga como a doença age no organismo), agentes infecciosos ou bacterianos podem ativar o sistema imunológico e estimular a produção de anticorpos contra os nervos, originando os sintomas neuromusculares. “Não é qualquer infecção que pode desencadear o surgimento dessa Síndrome. Possivelmente, são agentes infecciosos que compartilham alguma semelhança estrutural com os componentes dos neurônios e bainha de mielina (uma capa que reveste o nervo) e que, por isso, geram uma reação cruzada”. A neurologista destaca que por ser uma condição autoimune a resposta varia de pessoa para pessoa, conforme interação do organismo com o agente infeccioso.

Relação da SGB com Zika Vírus, Dengue ou Chikungunya

A primeira associação na literatura médica relacionando a SGB e o Zika vírus foi feita em 2013, diante das epidemias simultâneas de Dengue e febre Zika na Polinésia Francesa. Foram cerca de 10 mil casos de infecção por Zika vírus naquela região, segundo a Fiocruz, e pela primeira vez houve registro de casos graves, com complicações neurológicas decorrentes de doenças como a Síndrome de Guillain Barré. Em algumas regiões da Ásia, a SGB esteve relacionada ao surto de Campylobacter Jejuni. No Brasil, casos da patologia notificados no Rio de Janeiro foram associados a Dengue. Na Bahia, 47 casos confirmados estiveram relacionados ao histórico de Dengue, Zika ou Chikungunya.

Para Dr. Alessandro Farias, infectologista do HP, isso mostra que a Síndrome está vinculada a algum agente infeccioso predominante em determinada população. “Nos lugares do mundo em que houve epidemia de SGB foi observada uma correlação com epidemias concomitantes decorrentes de vírus com alta incidência na região, naquele momento”, destaca, observando que, hoje, a Bahia vive uma epidemia de Zika vírus – doença que até então não existia no Brasil, tendo surgido na África, seguido para a Ásia e se espalhado para diversas regiões do globo. “Uma pessoa diagnosticada com febre Zika raramente irá desenvolver um quadro de Síndrome de Guillain-Barré, assim como acontece com outros agentes infecciosos potencialmente relacionados a essa infecção”, adverte.

Sintomas e riscos para o paciente

O primeiro registro de SGB no mundo ocorreu no século passado. Nos dias atuais, a Síndrome é a principal causa de paralisia flácida no mundo. De acordo com Dra. Jesângeli, a fraqueza muscular é a principal característica da SGB, que pode se apresentar em graus variados, acometendo a musculatura dos membros, de forma simétrica, ou da face (geralmente nos dois lados). Dormência em extremidades (mãos e pés) é outra queixa bastante comum. “Normalmente, o quadro clínico evolui nessa ordem: membros inferiores, braços, troncos, face, quando então podem surgir falta de ar e dificuldade para engolir. É comum a manifestação de mais de um sintoma ao mesmo tempo, o que evita confundir a Síndrome com sensação de fadiga presente nos quadros virais”, informa a neurologista.

Em geral, a piora neurológica leva de 2 a 4 semanas para atingir seu máximo de gravidade. Após esse período, há uma fase de estabilização dos sintomas e depois passa a haver uma recuperação gradual da função motora, conforme a resposta individual. Por isso, a recomendação é observar a presença desses sintomas iniciais e buscar atendimento médico para avaliação e esclarecimento da patologia, ou serviço de emergência, dependendo do grau dos sintomas apresentados. “Confirmados os sintomas, o tratamento deve ser iniciado. Isso reduz as chances de reações mais graves relacionadas à fase aguda, como: paralisia muscular, dificuldade de deglutir, falta de ar (dispneia) por comprometimento do aparelho respiratório, entre outras que requerem terapia intensiva e podem motivar complicações e o risco de morte”, observa.

Diagnóstico

O diagnóstico da Síndrome é baseado no quadro clínico e pode ser feito por um neurologista ou outro médico habilitado. Exames complementares podem ser realizados a qualquer momento, porém, segundo os especialistas, podem apresentar resultado normal nos primeiros 7 a 10 dias do início dos sintomas. Feita a classificação do quadro clínico (leve, moderado ou grave) é traçado o plano terapêutico. “Profissionais habilitados em realizar o diagnóstico de SGB podem avaliar, por exemplo, se houve uma associação com os principais vírus circulantes na comunidade, mantendo o foco do tratamento mais adequado para a Síndrome”, ressalta Dr. Alessandro.

Tratamento

Diante da suspeita clínica da Síndrome, a depender da duração e gravidade dos sintomas, é recomendado internação do paciente e início do tratamento. Dra. Jesângeli explica que alguns casos podem requerer suporte de Terapia Intensiva porque a fraqueza muscular coloca o paciente em risco de desenvolver dificuldade muito grande para engolir, apresentar esforço para respirar, variações nos batimentos cardíacos e pressão arterial, que podem levar a parada cardíaca e falência respiratória. “A recuperação é variável. Alguns pacientes ficarão sem nenhuma seqüela. Estima-se que 5% a 10% terão sequelas motoras (fraqueza de membros, músculos da face, fadiga) ou sensitivas (dor, dormência) incapacitantes”, informa. A neurologista observa ainda que os pacientes com SGB podem ficar curados, já que a resposta é sempre individual e algumas pessoas se recuperam mais rápido que outras. “Algumas alcançam grande melhora inicial, depois têm a impressão de que esse processo estacionou porque não se recuperaram completamente. A literatura médica diz que a melhora máxima pode levar de meses até dois anos para acontecer, requerendo acompanhamento neurológico regular e fisioterapia, que é fundamental no processo de recuperação. Ter tranquilidade e entender que o restabelecimento não é imediato é essencial”, conclui a neurologista.