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Sono e disfunções metabólicas — Hospital Português da Bahia

3 de novembro de 2016

Sono e disfunções metabólicas

03 November 2016

Em meio aos apelos da vida moderna, como o uso excessivo de dispositivos tecnológicos, dormir tem deixado de ser uma prioridade para boa parte da população mundial. No ranking dos que dormem menos estão brasileiros, japoneses e cingapurianos, segundo pesquisa da Universidade de Michigan, nos EUA, que também assinala uma “crise de sono global”. Tal mudança de comportamento compromete a função vital do sono para a saúde do ser humano, já que é durante as horas de repouso que o organismo se regenera e busca atingir o desenvolvimento pleno de suas funções. Coordenador do Laboratório do Sono do Hospital Português, Dr. Francisco Hora observa que um repouso insuficiente ou com qualidade ruim se traduz em danos físicos, além de prejuízos intelectuais e emocionais. “Quem dorme mal tem risco aumentado para desenvolver mais de 70 tipos de doenças associadas ao sono”, alerta o especialista. Compondo esse rol, a obesidade e o diabetes agora ganham destaque em um estudo brasileiro, realizado na Universidade de Campinas – UNICAMP, que confirma a relação da qualidade do sono com as disfunções metabólicas e, ainda, revela que baixos índices de vitamina D, decorrentes de pouca exposição solar, são fatores de risco para essas doenças.

A pesquisa   

Centrada nas consequências da má qualidade do sono para a saúde, a pesquisa “Relação entre padrões de sono, concentrações de vitamina D, obesidade e resistência à insulina”, da especialista Liane Murari Rocha, avaliou 82 voluntários atendidos nos ambulatórios de Obesidade e Diabetes do Hospital das Clínicas, e no Centro de Saúde da Comunidade da UNICAMP. O grupo, composto majoritariamente por mulheres, foi dividido entre aquelas que, habitualmente, dormiam 6 horas ou mais por noite e as que dormiam menos que 6 horas noturnas. Por meio de questionário padrão sobre a qualidade do sono no último mês, o estudo avaliou comportamentos como tempo médio para dormir, horário habitual de dormir e horário habitual acordar.

Os achados, divulgados em setembro deste ano, confirmaram aspectos já conhecido da literatura científica: a restrição de sono (menos que seis horas por noite) implica em mudanças na composição do índice de Massa Corporal – IMC e nos índices glicêmicos, potencializando doenças metabólicas como obesidade e diabetes tipo 2. Analisando o consumo alimentar dos voluntários nas últimas 24 horas, a pesquisa encontrou influencias na má alimentação e no sobrepeso, como, por exemplo, a relação de recompensa com a comida e a correlação inversamente proporcional entre poucas horas de adormecimento e maior consumo calórico. A ingestão de calorias chegou a ser até 22% maior entre os que dormem menos que 6 horas por noite. Segundo a pesquisadora, o estudo se diferencia dos demais por avaliar um número maior de voluntários e pessoas que dormem exclusivamente à noite, sem abranger os trabalhadores noturnos, que, frequentemente, já apresentam alterações no metabolismo.

Presidente da Sociedade Baiana de Endocrinologia (SBEM Bahia) e especialista do Serviço de Endocrinologia do Hospital Português, Dr. Joaquim Custódio observa que a prevalência de distúrbios metabólicos, sobretudo, obesidade e diabetes mellitus tipo 2, tem crescido de maneira importante no Brasil, motivando diversas análises científicas voltadas para a identificação dos agentes que podem contribuir para este quadro, como a pesquisa da UNICAMP. “Este trabalho ratifica achados anteriores ao demonstrar que a menor quantidade de horas de sono está associada à piora de diversos parâmetros metabólicos, como a resistência à insulina (que aumenta o risco de diabetes), a elevação do conteúdo de lipídeos (gorduras) no sangue e o aumento da quantidade de gordura corporal”. O endocrinologista observa que a pesquisa também identificou outro fator importante para o surgimento de diabetes tipo 2: a presença de níveis inadequados de vitamina D. Este padrão foi observado de forma acentuada entre os participantes da pesquisa, especialmente, aqueles com maior relação peso/altura. “Além dos efeitos já conhecidos sobre a proteção da saúde óssea, hoje em dia, a vitamina D é reconhecida como um potencial fator predisponente para distúrbios metabólicos como o diabetes. Assim, tão importante quanto manter hábitos de sono saudáveis é manter uma exposição rotineira à luz solar, em horários apropriados, como meio principal de atingir níveis adequados de vitamina D e, consequentemente, auxiliar na prevenção do diabetes tipo 2”, orienta o endocrinologista.

A relação entre sono e distúrbios metabólicos também esteve presente nas discussões do 21º Congresso Mundial da Federação Internacional para a Cirurgia da Obesidade – IFSO, realizado em setembro no Rio de Janeiro. Convidado para mediar a mesa-redonda sobre problemas do sono, síndrome metabólica e cirurgia bariátrica com a participação de especialistas internacionais, Dr. Francisco Hora ressalta a atualidade da interação destas patologias. “Hoje, já está comprovado que quem dorme mal engorda e quem dorme bem emagrece, ao contrário do que se imaginava anos atrás. As interações entre a obesidade e o diabetes são tão fortes que criou-se o termo ‘diabesidade’ para classificar estes pacientes. No congresso da IFSO, criamos o termo ‘obesonosidade’ durante as discussões entre especialistas do sono e da cirurgia bariátrica para realçar a forte interação entre sono, obesidade e diabetes”. O médico observa que as disfunções endócrinas, como a obesidade, e as alterações hormonais relacionadas aos níveis de melatonina e cortisol são alguns dos sintomas comumente associados à insônia. Ao mesmo tempo, o excesso ou a falta de sono aumentam o risco para doenças crônicas, como o diabetes tipo 2. “Felizmente, a medicina do sono evoluiu e agora emprega alta tecnologia para diagnosticar e tratar de modo efetivo os distúrbios do sono”, informa o especialista.

O ponto de partida para identificar os fatores que podem estar interferindo na qualidade do sono é o exame de Polissonografia. Realizada no Laboratório do Sono do Hospital Português, a avaliação é considerada padrão ouro no diagnóstico de doenças associadas ao sono. Durante o exame, que possui duração mínima de seis horas, o paciente é monitorado por sensores conectados a computadores que registram de forma simultânea e com precisão cada uma das variáveis fisiológicas do sono: fluxo e esforço respiratório, ronco, frequência cardíaca, posição do corpo, movimento dos olhos (eletro-oculograma), oxigenação do sangue (oximetria), atividade elétrica cerebral (eletro-encefalograma) e muscular (eletromiograma). “Com base nos dados da Polissonografia, o médico pode realizar o diagnóstico preciso dos fatores que estão prejudicando o adormecimento do paciente, e instituir o tratamento mais adequado para a causa ou causas dos distúrbios do sono”, informa Dr. Francisco Hora. Entre os diversos benefícios conquistados por quem faz as pazes com o travesseiro, o especialista destaca a regulação do sistema endócrino e suas repercussões no controle do apetite, do peso e dos níveis glicêmicos.

Revista Imagem Real – Novembro 2016
http://www.hportugues.com.br/imprensa/revista-imagem-real