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Cérebro apaixonado — Hospital Português da Bahia

12 de junho de 2017

Cérebro apaixonado

12 June 2017

loveArrepio, euforia, coração disparado, mãos suadas, perda de apetite, insônia, pensamentos obsessivos… O que parece o prenúncio de um mal-estar, na verdade são reações comuns aos corações apaixonados. A propósito, nenhuma delas é causada pelo coração, símbolo do amor. Todas têm origem no cérebro, órgão responsável pelas sensações de encantamento e atração entre as pessoas. Logo, falar de amor, do ponto de vista da ciência, significa mapear regiões cerebrais e uma complexidade de reações químicas desencadeadas por este nobre sentimento. Neurologista do Serviço de Neurologia do Hospital Português, Dra. Jesângeli Dias explica que áreas específicas do cérebro são modificadas na paixão – aquelas ligadas ao sistema de recompensa são ativadas, enquanto outras têm sua atividade reduzida. “Fisiologicamente, a paixão está associada a alterações químicas no cérebro, causadas por hormônios ou neurotransmissores. Essas substâncias têm papel distinto na formação dos laços afetivos”, informa.

Na fase da atração, a dopamina desponta na estrutura cerebral abundantemente. A substância responde pelo sistema de recompensa, ou seja, ativa a vontade de estar com o ser amado, produz bem-estar, disposição, euforia, desejo e prazer. Em seguida, a serotonina entra em cena. Reguladora do sono, humor e apetite, ela apresenta baixos níveis no cérebro dos apaixonados – semelhante ao que acontece em estados obsessivos compulsivos –, gerando pensamento fixo na pessoa amada, e ainda diminuição do apetite, insônia e um certo mau-humor no distanciamento dos enamorados. Por fim, aumentam as concentrações de oxitocina e vasopressina, ajudando a tornar os vínculos mais duradouros. Essas duas substâncias são produzidas pelo hipotálamo e armazenadas na glândula hipófise, sendo liberadas na corrente sanguínea durante o orgasmo e também no parto e na amamentação. “A oxitocina gera efeito calmante, atração, vontade de proximidade, fortalecimento dos vínculos afetivos, estimulando a fidelidade; enquanto a vasopressina ‘protege’ a relação, despertando o ímpeto masculino diante de possíveis adversários”, diz Dra. Jesângeli.

A neurologista informa ainda que o sentimento ativa regiões do córtex cerebral (insula medial, cingulado anterior e hipocampo) e partes da região subcortical (núcleos accumbens e estriado) ricas em receptores de dopamina. O prazer desencadeado pelo uso de determinadas drogas está relacionado à estimulação dessas regiões. As concentrações de substâncias químicas no cérebro também parecem ter relação com a intensidade do sentimento romântico. “Vários estudos demonstram que os níveis do fator de crescimento neural (proteína relacionada à sensação de ‘amor à primeira vista’) são mais altos no início da paixão, do que nas relações estáveis. O mesmo ocorre com os hormônios sexuais, motivando a procura do parceiro”, observa.

A explosão química e os sentimentos à flor da pele fazem os apaixonados experimentarem um natural esgotamento físico e emocional, típico de situações de estresse. “A diferença é que na paixão o estresse vem acompanhado de um sentimento prazeroso, unindo os amantes, o que não ocorre geralmente em situações de tensão”, compara a neurologista. A culpa é dos altos níveis de cortisol e hormônios sexuais liberados na corrente sanguínea. Com taxas de testosterona elevadas, a libido aumenta, o toque libera endorfinas, surgem sensações de prazer. Descargas de adrenalina e noradrenalina acontecem com uma simples referência ao ser amado: o coração acelera, a pressão arterial aumenta, as pupilas dilatam-se, surge ‘borboletas no estomago’, a face fica rubra e os lábios rosados. “A atividade neural na região do córtex frontal também diminui. Essa área responde, entre outras coisas, pela capacidade de julgamento crítico; por isso, a paixão costuma afetar o raciocínio”, assinala Dra. Jesângeli, deixando escapar a origem daquela máxima que diz “o amor é cego”.

Leia a revista Imagem Real de Junho/17:
http://www.hportugues.com.br/imprensa/revista-imagem-real