10 de junho de 2026
Todos os anos milhares de vidas são salvas através de transplantes de órgãos e tecidos no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, o país possui o maior programa público de transplante de órgãos, tecidos e células do mundo, garantindo acesso a toda população através do Sistema Único de Saúde (SUS).
Nessa entrevista, a coordenadora da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Português (CIHDOTT-HP), Dra. Raquel Hermes, fala um pouco sobre o processo de doação e ressalta a importância de conversar sobre o assunto. Confira!
Revista Imagem Real – Quais órgãos e tecidos podem ser doados?
Dra. Raquel Hermes – Podem ser doados rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas, intestino, córneas, valvas cardíacas, pele, ossos e tendões. Contudo, essas doações dependem da estrutura do local de doação. Na Bahia, após o óbito, podem ser doados rins, fígado, válvulas cardíacas e córneas. Parentes até 4º grau podem doar um rim em vida quando há compatibilidade. Medula óssea e sangue são tecidos que podem ser doados em vida em banco de tecido específico sem necessidade de parentesco.
Revista Imagem Real – Qualquer pessoa pode ser um doador?
Dra. Raquel Hermes – Não. Existem algumas contraindicações. Para doação de órgãos (rins e fígado), portadores de neoplasias malignas não podem ser doadores, assim como portadores de algumas doenças infecciosas. Já para doação de córneas, que é um tecido, a principal contraindicação é a idade, que deve ser até 70 anos, e a ocorrência de infecções oculares. Pessoas falecidas com câncer, em geral, podem doar córneas até 6h após o horário do óbito. Algumas infecções também são contraindicações para doação de córneas. Em todos os casos, o profissional responsável analisa a condição do doador antes de falar com a família do mesmo.
Revista Imagem Real – Como funciona a doação em vida? (doador vivo)
Dra. Raquel Hermes – Parentes consanguíneos até 4º grau podem doar parte do fígado e um rim, desde que não haja prejuízo à própria saúde e que seja de livre e espontânea vontade. O candidato a doador deve realizar os exames de compatibilidade no serviço de cadastro do receptor. Mesmo durante a avaliação de um doador vivo, o receptor permanece na lista aguardando doador cadáver para evitar que o doador vivo possa sofrer algum dano.
Revista Imagem Real – Como é realizado o diagnóstico de morte encefálica?
Dra. Raquel Hermes – Cada país define seus critérios diagnósticos de morte encefálica (ME). No Brasil, o Conselho Federal de Medicina é responsável por estabelecer os critérios, que são dos mais rigorosos do mundo. O protocolo para diagnóstico de ME é composto por dois exames clínicos que são realizados por dois médicos capacitados e que não façam parte da equipe de transplante. Depois, de todos os fatores confundidores serem afastados ou terem sua causa compreendida, deve haver estabilidade clínica do paciente (pressão, temperatura e oxigenação), para que possam se realizados os testes para diagnóstico de morte encefálica: o teste de apnéia (comprovação de que não há estímulo para respiração) e o exame complementar que evidencie ausência de atividade metabólica ou fluxo sanguíneo para o cérebro.
Ao serem informados sobre a suspeita de ME os familiares têm o direito de acompanhar todo o procedimento.
Revista Imagem Real – Qual a importância de conversar sobre a doação e deixar a família ciente da decisão de ser doador?
Dra. Raquel Hermes – Atualmente, a doação só acontece após a autorização dos familiares próximos, até 2º grau, contudo, no momento do óbito, os familiares estão em sofrimento e não sabem como decidir. Daí a importância de avisar à família se você é favorável à doação de órgãos. Assim, quando o profissional responsável ofertar a oportunidade de doação aos familiares, eles já saberão a posição do familiar sobre o assunto.
Deixar os entes queridos cientes sobre a intenção de doação de órgãos e tecidos auxilia a família na hora da decisão, ajuda pessoas que estão na fila aguardando do transplante e ainda facilita a elaboração do luto pelos familiares. Afinal, haverá uma parte do falecido que permanecerá viva ajudando outra pessoa a ter uma melhor qualidade de vida.